Operação Fluxo Oculto: seis fintechs são investigadas por movimentar R$ 26 bilhões para o crime organizado
Ação coordenada entre Receita Federal, GAECO e Polícia Civil mira BK Bank, Ceopag, Sispay, Vpay, Yaw e Smart Solutions Group, acusadas de criar 'contas bolsão' e fundos para ocultar recursos ligados ao PCC. Helicóptero de R$ 25 milhões e 76 imóveis foram apreendidos.
Faria Lima vira alvo de operação contra lavagem de dinheiro ligada ao PCC
Uma operação de grande porte deflagrada na manhã de 28 de maio de 2026 colocou o mercado financeiro brasileiro em estado de alerta. Batizada de Operação Fluxo Oculto, a ação conjunta da Receita Federal, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público de São Paulo (GAECO/MP-SP), da Polícia Civil e da Agência Nacional do Petróleo (ANP) mirou seis fintechs suspeitas de ter processado mais de R$ 26 bilhões em recursos de origem ilícita entre 2022 e 2025 — parte deles atribuída ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Endereços na Faria Lima, principal polo financeiro do país, estiveram entre os alvos dos mandados de busca e apreensão.
O esquema: 'contas bolsão', fundos e nafta adulterada
As instituições investigadas — BK Bank, Ceopag, Sispay, Vpay, Yaw e Smart Solutions Group — teriam operado como verdadeiros "dutos financeiros" para o crime organizado. O mecanismo central do esquema era o uso das chamadas contas bolsão: contas únicas que agregavam recursos de dezenas ou centenas de clientes, tornando praticamente impossível rastrear a origem e o destino de cada centavo. Em paralelo, as fintechs abriam contas em outras instituições de pagamento, criando uma dupla camada de ocultação. Uma delas, identificada pelos investigadores, recebeu sozinha mais de R$ 1 bilhão em dinheiro vivo no período — volume completamente incompatível com a atividade regular de uma fintech. A Smart Solutions Group, por sua vez, movimentou R$ 1,2 bilhão, metade direcionada à empresa GGX Global. Já a Ceopag registrou R$ 359 milhões em créditos e R$ 513 milhões em débitos em transações consideradas atípicas. No total, as movimentações suspeitas consolidadas chegaram a R$ 3,86 bilhões apenas nas contas mais rastreadas.
O esquema não se limitava ao sistema financeiro. Paralelamente às fintechs, o grupo teria montado uma operação de desvio de combustível: empresas de fachada simulavam compras de nafta petroquímica para uso industrial e, em seguida, desviavam o produto para terminais onde era adulterado e comercializado como gasolina automotiva. A empresa Petrodansk teria emitido mais de 10 mil notas fiscais falsas, totalizando R$ 1,49 bilhão em transações fictícias, com prejuízo fiscal estimado em R$ 200 milhões em apenas dois anos. Para completar a arquitetura de lavagem, quatro fundos de investimento (estruturados como FIDC-NP) eram utilizados para dar aparência de legalidade aos lucros ilícitos, com patrimônio que saltou mais de 200% em pouco mais de um ano, alcançando R$ 205 milhões.
Bens apreendidos e suspeitos foragidos
Ao longo do dia 28 de maio, cerca de 60 mandados de busca e apreensão foram cumpridos em cinco estados — São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul —, mobilizando mais de 135 auditores-fiscais da Receita Federal, 87 promotores de justiça, 38 auditores, 18 delegados, 176 policiais militares e 10 fiscais da ANP. Entre os bens localizados estavam R$ 500 mil em espécie, um helicóptero avaliado em R$ 25 milhões e 76 imóveis ligados aos investigados. Cinco mandados de prisão foram expedidos e, até o fechamento desta reportagem, duas pessoas já haviam sido detidas. Dois dos líderes apontados pelo MP — Mohamad Hussein Mourad, conhecido como "Primo", e Roberto Augusto Leme da Silva, o "Beto Louco" — estão foragidos desde agosto de 2025 e teriam rejeitado uma proposta de delação premiada após omitir informações sobre o esquema de lavagem.
Vácuo regulatório exposto
A Operação Fluxo Oculto escancarou uma lacuna que o setor financeiro já conhecia, mas que as autoridades tardaram em atacar. Até 2025, instituições de pagamento não eram obrigadas a entregar a Declaração de Informações sobre Movimentação Financeira (e-Financeira) à Receita Federal — obrigação que os bancos tradicionais cumprem há anos. Das seis fintechs investigadas, apenas três informaram cerca de R$ 8 bilhões em operações realizadas em 2025; as demais serão autuadas por descumprir a exigência. Esse vácuo regulatório, segundo os investigadores, foi deliberadamente explorado pelo grupo para operar com menor transparência do que seria possível no sistema bancário convencional. A operação sinaliza que o Banco Central e a Receita Federal devem intensificar a supervisão sobre o segmento de pagamentos instantâneos e fintechs nos próximos meses.
Fonte original: Finsiders Brasil — 'Contas bolsão', fintechs e fundos: esquema movimentou R$ 26 bi na Operação Fluxo Oculto, publicado em 28/05/2026. Informações adicionais corroboradas por Times Brasil/CNBC Brasil e Brasil247.
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