Finanças · Fonte: Canaltech

EUA propõem tarifa de 25% sobre importações brasileiras e colocam o Pix no centro do debate comercial

O governo norte-americano anunciou uma proposta de tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, apontando o modelo regulatório do Pix como prática comercial desleal contra empresas americanas. O Pix doméstico não corre risco de extinção, mas exportadores brasileiros enfrentam impactos concretos.

EUA propõem tarifa de 25% sobre importações brasileiras e colocam o Pix no centro do debate comercial

O Pix virou alvo de Washington

O governo dos Estados Unidos deu um novo passo na escalada de tensões comerciais com o Brasil ao propor, em 2 de junho de 2026, uma tarifa adicional de 25% sobre uma ampla gama de importações brasileiras. A medida, anunciada pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR, na sigla em inglês), tem como um dos principais argumentos a estrutura regulatória do Pix, o sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central do Brasil — e que Washington classifica como uma prática que prejudica empresas americanas do setor financeiro.

O que o USTR alega sobre o Pix

A investigação foi aberta em julho de 2025, sob a Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana de 1974, e seu relatório final concluiu que políticas brasileiras representam um fardo injusto para os interesses comerciais dos EUA. No caso específico do Pix, a crítica centra-se no fato de o Banco Central operar simultaneamente como regulador e gestor do sistema, o que, segundo o USTR, cria vantagens artificiais em detrimento de provedores privados estrangeiros — como Visa e Mastercard. A obrigatoriedade de adesão dos grandes bancos e restrições de preços para concorrentes também foram apontadas como barreiras à competição justa.

A questão não é nova: em abril de 2026, a Casa Branca já havia alertado que o modelo do Pix poderia prejudicar empresas americanas de pagamentos. A investigação em curso apenas formalizou e aprofundou essa posição.

O Pix em si não está ameaçado — mas exportadores, sim

A despeito do alarmismo que o título da proposta pode provocar, especialistas são categóricos: o Pix não será extinto nem taxado dentro do Brasil. Decisões regulatórias sobre o sistema de pagamentos nacional são de soberania brasileira e estão fora do alcance jurídico dos Estados Unidos. O risco real recai sobre outro grupo: empresas brasileiras que exportam para os EUA ou que mantêm parcerias com companhias americanas, e que podem ver seus produtos encarecidos em um quarto do valor atual com a aplicação da tarifa.

O impacto, portanto, é indireto, mas economicamente significativo. O Brasil figura entre os maiores parceiros comerciais dos EUA na América do Sul, e uma sobretaxa de 25% teria efeitos em cadeia sobre setores industriais e agroindustriais.

Um conflito mais amplo do que parece

O Pix é o elemento de maior repercussão na proposta americana, mas está longe de ser o único ponto de atrito. O relatório do USTR também cita decisões judiciais brasileiras contra Google, Meta e X, além de divergências sobre proteção de propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, esforços anticorrupção e desmatamento ilegal. A tarifa proposta é, assim, um instrumento de pressão amplo, não uma medida cirúrgica.

Nem todos os produtos brasileiros estão na mira: carne bovina, café, terras raras, componentes aeronáuticos, frutas e combustíveis foram explicitamente excluídos da proposta — o que sugere que Washington calibrou a medida para não afetar setores de interesse mútuo.

Calendário e próximos passos

A proposta ainda não é definitiva. O processo prevê uma audiência pública para o dia 6 de julho de 2026, com prazo final para comentários escritos em 1º de julho. A decisão final caberá ao presidente Donald Trump e deverá ser conhecida até 15 de julho de 2026. O embaixador norte-americano Jamieson Greer sinalizou que as negociações com o Brasil "se intensificaram nas últimas semanas", embora reconheça que "divergências substanciais" ainda persistem em temas centrais.

O governo brasileiro tem até meados de julho para apresentar suas contrapropostas e, potencialmente, negociar a retirada ou redução das tarifas. O resultado desse processo definirá não só o custo das exportações nacionais para o maior mercado do mundo, mas também o futuro do Pix como referência global em pagamentos instantâneos — uma conquista que Washington claramente não quer ver replicada à custa de suas próprias empresas.


Fonte: Canaltech, com informações corroboradas por Agência Brasil, Poder360 e NDMais.

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