Tecnologia · Fonte: Canaltech

Decreto de Lula impõe novas regras às big techs: o que muda para plataformas digitais no Brasil

O presidente Lula assinou dois decretos regulatórios em maio de 2026 que ampliam as obrigações de moderação de conteúdo, responsabilização por fraudes digitais e fiscalização das grandes plataformas tecnológicas no país. Empresas do setor já manifestaram críticas, alertando para riscos de insegurança jurídica e excesso de remoções.

Decreto de Lula impõe novas regras às big techs: o que muda para plataformas digitais no Brasil

Brasil estreita o cerco às grandes plataformas digitais

O governo federal deu um passo significativo na regulação das grandes empresas de tecnologia ao publicar, em 20 de maio de 2026, dois decretos que estabelecem obrigações mais rígidas para plataformas como Facebook, Instagram, X e Google operarem no Brasil. As novas normas, assinadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tratam de temas que há anos permeiam o debate público: moderação de conteúdo, responsabilização por publicidade fraudulenta e proteção de grupos vulneráveis no ambiente digital.

O que dizem os decretos

Entre as mudanças mais relevantes está a alteração no processo de remoção de conteúdo ilegal. Até então, as plataformas dependiam de autorização judicial para derrubar publicações. Com os novos decretos, os próprios usuários podem notificar diretamente as empresas sobre material criminoso — e o criador do conteúdo passa a ter direito de contestar a decisão. A medida abrange crimes considerados graves, como terrorismo, exploração sexual infantil, tráfico de pessoas e incitação à automutilação ou à violência contra mulheres.

Na área de publicidade digital, as empresas que comercializam anúncios passam a ser obrigadas a manter registros que permitam identificar os responsáveis por campanhas fraudulentas e redes artificiais de disseminação de golpes. A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) foi designada como o órgão responsável por fiscalizar o cumprimento das novas regras e aplicar sanções em caso de descumprimento. Serviços de mensageria privada, como WhatsApp, e ferramentas de videoconferência ficam fora do escopo da regulação, em respeito à garantia constitucional de sigilo das comunicações.

A reação do setor

A recepção por parte das empresas de tecnologia foi marcada por resistência. A Câmara Brasileira de Economia Digital, que reúne representantes do setor, protocolou críticas formais apontando três fragilidades principais: insegurança jurídica, impactos operacionais desproporcio­nais e uma janela temporal inadequada para adaptação. O argumento central das companhias é que os decretos transformam em obrigação regulatória uma decisão do Supremo Tribunal Federal que ainda aguarda análise de recursos — o que, na avaliação do setor, compromete a previsibilidade do ambiente de negócios. Além disso, as empresas alertam para o risco de remoções excessivas de publicações e para a dificuldade de provedores menores em absorver os novos custos de conformidade.

O governo rebate as críticas sustentando que os decretos não criam obrigações inéditas, mas sim detalham procedimentos e atribuem responsabilidades institucionais a uma decisão judicial que já estava em vigor, porém carecia de mecanismos claros de aplicação e fiscalização.

Contexto e perspectivas

O movimento regulatório brasileiro se insere numa tendência global: União Europeia, Reino Unido e Austrália já aprovaram legislações que responsabilizam plataformas por conteúdo ilegal e fraudes digitais. No Brasil, o debate ganhou urgência após episódios de desinformação em larga escala e o crescimento dos golpes financeiros mediados por redes sociais. A polêmica em torno do Marco Civil da Internet e de projetos como o PL das Fake News nunca produziu consenso legislativo, o que levou o Executivo a recorrer à via dos decretos para avançar na agenda regulatória.

Especialistas ouvidos por veículos como o Canaltech avaliam que a efetividade das novas regras dependerá da capacidade operacional da ANPD para fiscalizar empresas com estruturas globais e orçamentos jurídicos robustos. A definição clara de prazos, critérios técnicos para identificação de conteúdo ilegal e canais de apelação acessíveis aos usuários serão determinantes para que a regulação produza resultados concretos sem sufocar a liberdade de expressão — equilíbrio que, por ora, permanece como o maior desafio do novo marco regulatório.


Fonte: Canaltech, com corroboração de Agência Brasil (EBC) e Correio Braziliense. Publicado originalmente em 26 de maio de 2026.

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